
Já era tarde quando fui dormir. Mais uma vez abandonei qualquer chama de dignidade e ridicularizei-me em frente ao meu marido.
Desde que retornei da clínica, por diversas vezes tentei aproximar-me dele como mulher, mas as respostas são sempre negativas. Seu olhar, seu corpo e sua alma respondem que não me desejam, que não me querem por perto. Mesmo assim eu insisto.
Aproximo-me com cautela. Aos poucos ele parece me perceber no ambiente. Em minutos, contudo, tenho a sensação de ser mais um utensílio velho jogado naquela peça que fede a mofo.
Vou a sua direção. Ele finge rabiscar em seus papéis e sequer olha para o meu rosto.
Minha única alternativa agora é o toque. Mas ele também repele meu corpo. Nem mesmo meus seios - fartos e ouriçados -, que antigamente eram apalpados com imensa vontade lhe chamam a atenção. Meus braços – com uma nesga de vigor - ao o enredarem tentam sugar a energia que outrora exalava de seu corpo, e que agora parece sem vida - ao menos para mim. Meus dedos quando se encorajam, ainda acariciam seus cabelos, mas não mais conseguem embalar seu sono.
Eu lhe suplico, mendigo amor. Ele me olha com nojo.
Não sou mais mulher, sou um ser vivo rastejante em busca de uma pedra aquecida pelo sol após um dia de tempestade.
Já era tarde quando fui dormir.
(Picture taken from http://www.bloggedup.blogger.com.br/)
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